A vida pastoral-catequética de toda Igreja vive à sombra do mandato apostólico de Jesus, eixo fundamental e centro da catequese[1], que após sua ressurreição e antes da sua ascensão, confiou aos Apóstolos a missão de fazer discípulos ensinando-os (Cf. JOÃO PAULO II, 1979, p. 1). Assim, os textos presentes nos Sinóticos e em At deixam claro o envio que Cristo estabelece aos Apóstolos de anunciar/proclamar a todos os povos o seu Evangelho batizando-os (Cf. Mt 28,19), ou seja, fazer escutar e repercutir a Boa Nova e inserir os que acolhiam esta Palavra, na Igreja, o Corpo de Cristo (Cf. 1Cor 12).

            O corpus sinoticum apresenta na conclusão do seu texto (Cf. Mt 28, 19s; Mc 16, 15-20; Lc 24) a ardente missão da Igreja em evangelizar, numa atitude de encontro, para que, o anúncio fosse eficaz e a partir dele a Igreja primitiva pudesse se desenvolver. Os Apóstolos, obedecendo ao mandato do Senhor e impelidos pelo Espírito, dão início ao cumprimento da ordem do Cristo, através da Igreja que prossegue no seu dever pastoral, o anúncio de Cristo a todos as nações. Esse anúncio não se refere a uma doutrina vazia de sentido, pois o poder conferido por Cristo foi de exatamente “anunciar aos homens aquilo que eles próprios tinham ouvido do Verbo da Vida, visto com seus olhos, contemplado e tocado com as suas mãos” (JOÃO PAULO II, 1979,p.1).

            Os Apóstolos no início de sua missão catequética de anunciar e ensinar, ou seja, de fazer ressoar a Palavra de Deus, faziam com a autoridade herdada do próprio Cristo. Ressoavam não uma palavra qualquer, mas “a alegria do Evangelho” (FRANCISCO, 2013, p.1) na qual, “enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (FRANCISCO, 2013, p. 1). Este anúncio primitivo estava cercado por um contexto histórico-cultural conflituoso marcado pelo judaísmo e o paganismo resultante de práticas de perseguições severas contra o cristianismo nascente. Todavia, a força do anúncio do Evangelho e das instruções para o seguimento a Cristo impelia e tocava a vida dos que recebiam.

            A catequese[2] surge primitivamente neste contexto de anúncio somado a todo trabalho desenvolvido de fazer discípulo, instruindo os fiéis na pertença do Cristo, para que O acolhessem em suas vidas como verdadeiro Filho de Deus. Assim, as primeiras comunidades cristãs receberam o anúncio e cresceram em torno dele sendo formadas pelo ensinamento ou doutrina dos Doze Apóstolos, a Didaqué.[3] Este ensinamento tornava vivo o convite para as primeiras comunidades viverem em profunda unidade e crescerem em torno da Palavra de Deus. A “pedagogia do encontro”[4] é superabundante neste tempo dado o vínculo profundo, sinal da fé e do amor, que essas comunidades viviam ao serem catequizadas.

            O atual Diretório para a Catequese (2020) expressa a profunda eficácia da fonte originária da ação catequética na Igreja primitiva ao dizer que

A catequese permanece enxertada na sólida tradição que caracterizou a história do cristianismo desde suas origens. Ela permanece como uma peculiar atividade formativa da Igreja que, no respeito pelas diversas faixas etárias dos fiéis, esforça-se por tornar o Evangelho de Jesus Cristo sempre atual.[5]

                São João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, especifica o objetivo da catequese como anúncio querigmático, realçando o modelo de encontro e anúncio das primeiras comunidades. Sendo assim, ele apresenta o duplo objetivo que consiste em “fazer amadurecer a fé inicial e de educar o verdadeiro discípulo de Cristo, mediante um conhecimento mais aprofundado e sistemático da Pessoa e da mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo” (JOÃO PAULO II, 1979, p. 19) Sendo assim,

o conteúdo essencial do primeiro anúncio (querigma) trata da vida de Jesus de Nazaré, de sua pessoa, de sua mensagem, de sua missão e de seu momento culminante de morte e ressurreição (Páscoa). Por aí passou a formação progressiva de novos discípulos. Nesse processo, contavam sempre com a ação do Espírito Santo, presente no testemunho de vida dos que já faziam parte das comunidades cristãs.[6]

            A fonte primitiva e, com isso de toda a catequese, consiste na Pessoa do próprio Mestre Jesus: Ele quem através de sua missão na terra ensina aos Apóstolos como anunciar e agir. A leitura do Evangelho esclarece o quanto Jesus através de suas parábolas, palavras e ações revela o seu ser, demonstrando com isso, que, toda sua vida foi um profundo ensinar (Cf. JOÃO PAULO II, 1979, p.9) anunciando o Reino, fazendo-se próximo às pessoas. Portanto, catequizar consiste em “levar alguém a perscrutar este Mistério em todas as suas dimensões […] procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo e dos sinais por Ele realizados” (JOÃO PAULO II, 1979, p.5).

           O itinerário da pedagogia do encontro se dá justamente na finalidade da catequese que João Paulo II definirá “fazer que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo” (JOÃO PAULO II, 1979, p. 5). Assim, se compreende o valor significativo de transmitir o ensinamento da fé cujo conteúdo é a Pessoa do próprio Jesus. Ao passo que àqueles que recebiam este anúncio e sentiam tocados por ele, tinham suas vidas transformadas pertencendo a Cristo pelo batismo fruto do anúncio testemunhado.

            O livro dos Atos dos Apóstolos relata o quanto os Apóstolos foram fiéis ao mandato que haviam recebido de Cristo e o quanto as comunidades primitivas foram crescendo e se desenvolvendo na mesma fidelidade. Desse modo, vê-se a partir de At 6, desse livro, a forma pela qual os Apóstolos foram congregando outros para realizar este anúncio como a missão de Estêvão (Cf. At 6,8), de Filipe na Samaria (Cf. At 8,4ss), e tantos outros.

            A figura do Apóstolo Paulo é de profundo destaque no que tange ao anúncio realizado na Igreja primitiva. Juntamente com os relatos de suas cartas, pode-se ainda notar de forma análoga “as Cartas de São Pedro, de São João, de São Tiago e de São Judas são outros tantos testemunhos da catequese dos tempos apostólicos” (JOÃO PAULO, 1979, p.11). Ademais, o próprio Evangelho em sua redação foi modelo desta catequese primitiva, em que primeiro se tem sua forma oral, passando depois para a forma escrita. A própria estrutura do Evangelho configura a ação catequética de Jesus e que posteriormente a narrativa de São Mateus se tornou o “Evangelho do catequista” e de São Marcos “o Evangelho do catecúmeno” (JOÃO PAULO, 1979, p.11).

           Neste ínterim histórico, vê-se a origem e os princípios catequéticos na Igreja enquanto pedagogia do encontro promovendo a comunhão do iniciado com a Pessoa de Jesus Cristo. Assim, “a catequese coloca-se dentro desta perspectiva evangelizadora, mostrando uma grande paixão pelo anúncio do Evangelho” (CNBB 2019, p.42).

      A comunidade primitiva deixa um frutuoso rastro para ser percorrido na história do desenvolvimento catequético na vida da Igreja, que, está profundamente em relação com a missão evangelizadora. O primeiro anúncio (querigma Cf. At 2,14-26) configura de forma eficaz e peculiar esse princípio da catequese cuja finalidade “é aprofundar e amadurecer a fé, educando o convertido para que se incorpore à comunhão cristã” (CNBB, 2019, p.44). Assim, não se compreende a catequese sem supor a primeira evangelização (Cf. CNBB, 2019, p. 44), o encontro vivo e atraente com Jesus que anuncia seu reino.

          Desde a antiguidade pode ser visto o fruto da missão apostólica que foi exatamente fazer discípulos. O anúncio evangelizador através do encontro que, atrai e transforma a vida da pessoa, conduz ao seguimento da fé em que está presente o discipulado. Essa atração motivadora e enriquecedora, da qual propõe a conversão e o seguimento, revela o cristocentrismo de toda catequese, ou seja, “conduz ao centro do Evangelho, à conversão, à opção por Jesus Cristo que nos revela o Pai, no Espírito Santo […] e ao seu seguimento” (CNBB, 2019, p. 29).

            Nota-se, com a revelação deste anúncio e o despertar para o discipulado, que, a catequese possui desde sua origem a dimensão cristológico-antropológica, pois todo anúncio feito por Cristo e propagado pelos Apóstolos como evangelização, age na vida e na história do povo. A experiência da pedagogia do encontro é transformadora para a vida da comunidade dos que recebem o anúncio como pode ser visto nas lutas e contextos socioculturais das comunidades primitivas que, ao serem iniciadas perseveravam na fé pela doutrina recebida.

Não se pode ignorar este alicerce do qual se fundamenta a história da catequese na vida da Igreja para tecer seu atual contexto e desafios. A síntese reflexiva desta origem é justamente compreender numa ótica contemporânea o que o Diretório para a Catequese (2020) afirma: “a catequese permanece enxertada na sólida tradição que caracterizou a história do cristianismo desde sua origem. Ela permanece como uma peculiar atividade formativa da Igreja” (DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE, 2020, p. 13). Assim, desde a época primitiva e o que continuaremos a desenvolver, a pedagogia do encontro propõe a eficácia sempre atual do Evangelho de Jesus Cristo (Cf. DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE, 2020, p. 13).

Por  Sem. Alan Nogueira  – 26 de outubro de 2021

Você também pode gostar