Vanda Marli dos Santos Silva

Arquidiocese de São Luís – Maranhão

O mundo tem passado por profundas transformações que impactam diretamente na maneira de viver da humanidade, no relacionamento do ser humano com o outro e com Deus. O homem, diante de um mundo volátil, sem parâmetros e sem valores, se encontra sedento de orientações, de um norte, de palavras que o fortaleçam e o direcionem em um caminho, um itinerário que o oportunize construir uma vida significativa.

A Igreja Católica, atenta aos anseios da humanidade, aos apelos do homem, às mudanças que ocorrem de maneira tão intensa que quase não conseguimos mensurar seus impactos no cotidiano, vem refletindo e buscando saídas para que a manifestação do Deus Vivo ao mundo seja eficaz em meio a um mundo tão conturbado.

O Papa Francisco tem bradado em muitos encontros que se faz necessário e urgente a revisão do nosso processo de transmissão da fé. Diante desse apelo vemos a Iniciação à Vida Crista como um caminho que possibilita uma evangelização alicerçada nos primórdios da igreja e que atende ao homem e a mulher com sede de Deus nas suas necessidades de encontrar verdadeiramente Jesus de a exemplo da samaritana, beber da verdadeira água, de fazer um encontro que mude e dê significado à sua existência.

De acordo com Carvalho e Gil,

O processo de Iniciação à Vida Crista com inspiração catecumenal tem por objetivo favorecer a experiência do encontro com Jesus Cristo, o acolhimento da Boa Notícia do Reino, a participação afetiva e efetiva na comunidade de fé, o desejo de ser, no mundo e na sociedade atual, sinal da presença transformadora do amor misericordioso de Deus. (Pág., 11)

No processo de Iniciação à Vida Crista, a catequese, enquanto uma das protagonistas desse desafio, se reveste de uma nova responsabilidade e busca uma metodologia que colabore no processo de evangelização. Assim, a partir dos estudos dos documentos norteadores da Iniciação à Vida Crista, a catequese se deparou com o que chamamos de metodologia das duas mesas: a Mesa da Palavra e a Mesa da Partilha.

O método utilizado pela catequese da América Latina continua sendo o recomendado pelo Concílio Vaticano II: VER, JULGAR, AGIR, que diante de nossas reflexões se transformou em Ver, Iluminar, Celebrar, Agir e Avaliar. Dentro desse contexto, a partir dos estudos da Catequese de estilo catecumenal, que está ligada diretamente à Liturgia, vemos nascer a “metodologia das duas mesas”, fazendo uma clara referência à Santa Missa que tem por base a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. 

Ao redor da Mesa da Palavra, catequista e catequizando são convidados a ouvir, meditar e ruminar a Palavra de Deus. É essa Palavra que fundamenta o tema proposto para o encontro do dia e deve ser manifestada solenemente com todo o respeito que deve ser dado a ela. É essa Palavra que deve nortear a vida de quem se coloca na caminhada que leva à pessoa de Jesus Cristo.

A Exortação Apostólica Evangelium Gaudium (174) nos diz que “toda evangelização está fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte de evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra.”

Na Mesa da Palavra, o catequista pode levar seus catequizandos a vivenciar a leitura orante da Bíblia, celebrar a Palavra e prepará-los para a celebração litúrgica. Hoje, encontramos em nosso país muitas paróquias que já colocaram em cada espaço catequético um ambão a fim de que o lugar para a catequese tenha uma feição litúrgica e o catequizando tenha a oportunidade de experimentar uma catequese querigmática e mistagógica.

O segundo momento de um encontro de catequese de estilo catecumenal é a Mesa da Partilha. É o espaço para a análise da realidade vivenciada sob a luz da Palavra refletida. É o momento em que a sede de Deus, de conhecimento é saciada. Na Mesa da Partilha, a catequese utiliza o método recomendado pela Igreja: Ver, Iluminar, Agir, Celebrar. A Mesa da Partilha pode ser uma mesa propriamente dita ou apenas uma disposição de pessoas que, se entreolhando e tendo a Palavra de Deus como centro, fazem a reflexão sobre a vida, sobre o Reino, sobre a Missão, sobre o Amor de Deus.

O subsídio Itinerário Catequético (pág. 38) nos diz que “a catequese será mais bíblica e vivencial, iluminando a realidade do catequizando com a Palavra de Deus”. Para corroborar com essa orientação, o documento 107 da CNBB (pág. 185) nos diz que 

“O local destinado à catequese e à formação dos fiéis não se improvisa; deve ser um espaço simples e adequado a essa importante missão. Pode ser uma sala específica, um espaço adaptado no salão paroquial, mas sempre devidamente preparado. Por exemplo: que nesse local haja Mesa da Palavra, um quadro bíblico ou um pequeno oratório… tudo para ajudar a introduzir no sentido do sagrado(pág.185).

Assim, Mesa da Palavra e Mesa da Partilha se revestem de uma importância significativa para quem se coloca à disposição do Reino e assume o desafio de trabalhar com a Iniciação à Vida Crista acreditando na divina e árdua tarefa de formar discípulos missionários para a disseminação da Palavra de Deus.

Conhecer, estudar, pesquisar, refletir, analisar devem ser ações inerentes a quem se dispõe a atender ao apelo da santa Igreja e assume o desafio de implantar a Iniciação à Vida Cristã. O conhecimento dos documentos norteadores dessa ação é condição fundamental para o desenvolvimento de um trabalho responsável e consistente. Muito se tem para fazer. A igreja precisa de braços para pegar no arado. Vamos lá?

BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, Umberto Robson de. GIL, Paulo César. Iniciação à vida crista e pedagogia catecumenal. São Paulo, Paulus, 2019.

CNBB. Iniciação à Vida Crista – Itinerário para formar discípulos missionários. Doc. 107.Edições CNBB. São Paulo. 2017.

Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética. Itinerário Catequético. Brasília, Edições CNBB. 2014.

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